O Urologista é o Médico do Homem: Por Que Não Esperar os 40 Anos Para Sua Primeira Consulta
Saúde Masculina

O Urologista é o Médico do Homem: Por Que Não Esperar os 40 Anos Para Sua Primeira Consulta

Dr. Felipe de Bulhões

Dr. Felipe de Bulhões

CRM-SP 202291 | Urologista | TCBC

29 de Março de 202610 min de leitura

O gap da saúde masculina: um problema cultural

Existe uma assimetria preocupante na saúde brasileira. Enquanto as mulheres são orientadas desde a adolescência a procurar o ginecologista — para acompanhamento menstrual, orientação contraceptiva, prevenção de doenças e check-ups regulares — os homens crescem sem um médico de referência equivalente. O resultado é alarmante: segundo dados do IBGE e do Ministério da Saúde, os homens brasileiros vivem em média 7 anos menos que as mulheres e são responsáveis por 60% das mortes prematuras (antes dos 70 anos).

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH) reconhecem que essa diferença não é biológica — é comportamental e cultural. O homem não foi educado a cuidar preventivamente da sua saúde.


O paralelo com a ginecologia: uma lição a aprender

Quando uma menina entra na puberdade, a família naturalmente a encaminha ao ginecologista. Esse profissional a acompanhará por toda a vida, cuidando de:

  • Desenvolvimento puberal e ciclo menstrual
  • Orientação contraceptiva e saúde sexual
  • Prevenção de ISTs e câncer de colo uterino
  • Gestação e menopausa
  • Rastreamento de câncer de mama

E o menino? Quem cuida dele quando sai do pediatra?

Na maioria dos casos, ninguém. O adolescente masculino fica em um "limbo médico" — sem acompanhamento regular até que algum problema grave o force a procurar ajuda, muitas vezes décadas depois. Essa lacuna tem consequências sérias.


O urologista em cada fase da vida masculina

Adolescência (12-18 anos)

O urologista pode e deve ser consultado já na adolescência para:

  • Avaliação do desenvolvimento puberal — identificar atrasos ou alterações hormonais
  • Varicocele — presente em até 15% dos adolescentes, pode comprometer a fertilidade futura se não tratada
  • Fimose — avaliação da necessidade de postectomia
  • Criptorquidia — testículos que não desceram adequadamente
  • Orientação sobre HPV — vacinação e prevenção de verrugas genitais e câncer
  • Torção testicular — educação sobre sinais de alerta (emergência urológica)
  • Orientação sexual — dúvidas sobre desenvolvimento, ejaculação e saúde sexual

Referência: A EAU Paediatric Urology Guidelines (2025) recomenda acompanhamento urológico para varicocele em adolescentes com alteração do volume testicular, e a SBU orienta avaliação urológica na puberdade para rastreamento de condições congênitas.

Adulto jovem (18-35 anos)

Fase frequentemente negligenciada, mas com demandas urológicas importantes:

  • Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) — HPV, clamídia, gonorreia, herpes
  • Infertilidade masculina — responsável por 40-50% dos casos de infertilidade do casal
  • Dor testicular crônica — investigação de epididimite, varicocele, cistos
  • Cálculos renais — pico de incidência entre 20-40 anos
  • Infecções urinárias — embora menos comuns em homens, quando ocorrem exigem investigação
  • Saúde sexual — ejaculação precoce, curvatura peniana (doença de Peyronie)
  • Planejamento familiar — vasectomia como método contraceptivo definitivo

Referência: Segundo a AUA Male Infertility Guidelines (2024), todo homem em casal com dificuldade para conceber deve ser avaliado por urologista, pois o fator masculino está presente em metade dos casos.

Meia-idade (35-55 anos)

Período em que muitas condições começam a se manifestar:

  • Hiperplasia Prostática Benigna (HPB) — sintomas urinários progressivos
  • Disfunção erétil — pode ser o primeiro sinal de doença cardiovascular
  • Hipogonadismo (queda de testosterona) — fadiga, perda de libido, ganho de peso
  • Síndrome metabólica — relação direta com saúde urológica e andrológica
  • Rastreamento de câncer de próstata — início conforme fatores de risco
  • Cálculos renais recorrentes — estudo metabólico e prevenção

Referência: A EAU Guidelines on Male Hypogonadism (2025) destaca que a deficiência de testosterona afeta 2-6% dos homens entre 40-79 anos e está associada a aumento do risco cardiovascular, diabetes tipo 2 e osteoporose.

Maturidade (55+ anos)

Fase que exige acompanhamento mais frequente:

  • Câncer de próstata — rastreamento ativo e vigilância
  • HPB avançada — opções cirúrgicas modernas (HoLEP, ThuLEP, Rezum)
  • Incontinência urinária — avaliação e tratamento
  • Disfunção erétil — novas opções terapêuticas
  • Bexiga hiperativa — tratamento medicamentoso e procedimentos
  • Câncer de bexiga e rim — rastreamento em grupos de risco

Os números que comprovam a urgência

DadoFonte
Homens vivem em média 7 anos menos que mulheres no BrasilIBGE, 2023
60% das mortes prematuras são de homensMinistério da Saúde / PNAISH
59% dos homens não visitam o urologista regularmenteSBU, 2025
46% só procuram o médico quando têm sintomasSBU, Novembro Azul 2025
Câncer de próstata em jovens (<49 anos) cresceu 32%Ministério da Saúde, 2024
40-50% da infertilidade do casal tem fator masculinoAUA Guidelines, 2024

A mudança começa agora

Precisamos mudar a cultura da saúde masculina no Brasil. Assim como nenhuma mulher espera ter um problema ginecológico para procurar seu ginecologista, nenhum homem deveria esperar os 40 anos — ou pior, esperar sintomas — para conhecer seu urologista.

O urologista é o médico do homem. Não apenas o "médico da próstata", mas o especialista que acompanha a saúde masculina em todas as suas dimensões: urinária, sexual, reprodutiva e hormonal.

O que fazer agora?

  1. Se você tem entre 12-18 anos (ou é pai de um adolescente): agende uma primeira avaliação urológica. É simples, rápido e pode prevenir problemas futuros.
  2. Se você tem entre 18-35 anos: não espere sintomas. Faça um check-up urológico, especialmente se tem vida sexual ativa ou planeja ter filhos.
  3. Se você tem 35+ anos: estabeleça um acompanhamento regular. A prevenção é o melhor investimento em qualidade de vida.
  4. Se você tem 50+ anos: o rastreamento de câncer de próstata é fundamental. Não deixe o preconceito atrapalhar sua saúde.

O melhor momento para começar a cuidar da sua saúde foi ontem. O segundo melhor é hoje.


Referências

  1. IBGE — Tábua de Mortalidade 2023. Expectativa de vida por sexo no Brasil.
  2. Ministério da Saúde — Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), 2009/2024.
  3. Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) — Campanha Novembro Azul 2025: Pesquisa sobre hábitos de saúde masculina.
  4. EAU Guidelines on Paediatric Urology — European Association of Urology, 2025.
  5. EAU Guidelines on Male Hypogonadism — European Association of Urology, 2025.
  6. AUA Guidelines on Male Infertility — American Urological Association, 2024.
  7. Agência Brasil — Câncer de próstata: atendimento aumenta 32% em homens com até 49 anos. Novembro de 2025.
  8. Campbell-Walsh-Wein Urology, 13th Edition — Chapter 1: Evaluation of the Urologic Patient.

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